Hades e a reinvenção da narrativa nos roguelikes
- Gustavo Santos
- 1 hora atrás
Lançado em 2020, Hades rapidamente se tornou um dos jogos mais aclamados da última década. Desenvolvido pela Supergiant Games, o título combinou elementos clássicos do gênero roguelike — morte permanente, progressão gradual e geração procedural — com uma narrativa envolvente e profundamente emocional. Ao contrário de muitos jogos do gênero, que priorizam apenas desafio e repetição, Hades transformou a experiência de morrer em uma ferramenta narrativa, redefinindo o que significa contar histórias em jogos desafiadores.
Hades não é apenas sobre lutar e sobreviver; é sobre entender personagens, suas motivações e o impacto do ciclo de repetição no desenvolvimento da narrativa. Este artigo explora como Hades reinventou o gênero roguelike, elevando-o a uma experiência de storytelling memorável e emocionalmente rica.
O contexto do roguelike tradicional
Antes de Hades, roguelikes clássicos, como Rogue, Spelunky e Dead Cells, tinham foco quase exclusivo em mecânicas de jogo: progressão difícil, morte permanente e mapas aleatórios. A narrativa existia, mas era mínima ou secundária, servindo apenas como pano de fundo.
O gênero era conhecido por desafiar jogadores a dominar sistemas complexos, com pouca ênfase em história ou construção de personagens. Morrer significava fracasso e reinício, sem muita consequência narrativa.
Hades e o casamento entre morte e história
Hades introduziu um conceito inovador: cada morte não é apenas um reset, mas uma oportunidade de avançar na narrativa. Zagreus, o protagonista e filho de Hades, tenta escapar do submundo repetidamente, e cada tentativa revela novas linhas de diálogo, interações e detalhes sobre outros personagens.
Essa abordagem transforma o ciclo de morte, tradicionalmente frustrante nos roguelikes, em algo gratificante. Jogadores são incentivados a tentar novamente não apenas pelo desafio, mas para descobrir mais sobre a história.
A construção de personagens dinâmicos
Um dos maiores méritos de Hades é a profundidade de seus personagens. Hades, Perséfone, Poseidon, Atena e muitos outros não são apenas figuras mitológicas estáticas, mas personagens complexos com personalidade própria, conflitos internos e desenvolvimento ao longo do jogo.
As relações de Zagreus com esses personagens evoluem com cada tentativa de fuga. A narrativa se adapta à progressão do jogador, criando uma sensação de intimidade e crescimento emocional que poucos roguelikes alcançam.
Sistema de diálogos adaptativos
Hades implementa diálogos dinâmicos, que mudam de acordo com o progresso, itens adquiridos, escolhas do jogador e frequência das tentativas. Essa técnica garante que mesmo repetições constantes não se tornem entediantes.
Além disso, os diálogos muitas vezes incorporam humor, referência a mitos e detalhes de personalidade, enriquecendo a experiência e tornando cada encontro significativo.
Mitologia como base narrativa
A mitologia grega é o coração de Hades, mas o jogo não se limita a recriar mitos. Ele os reinventa, oferecendo interpretações modernas e humanizadas de deuses e heróis. Conflitos familiares, ciúmes, orgulho e amor são explorados de forma profunda, tornando os personagens mais humanos e relacionáveis.
Essa abordagem permite que jogadores aprendam sobre mitologia de forma orgânica, sem precisar recorrer a textos ou enciclopédias externas.
A evolução do roguelike moderno
Hades mostrou que roguelikes não precisam ser apenas difíceis ou punitivos. A integração de narrativa, progressão e replayability cria um modelo que influencia jogos subsequentes do gênero. Mecânicas como upgrades permanentes, diálogos adaptativos e recompensas emocionais redefinem como contar histórias em jogos com morte permanente.
Jogadores agora podem se sentir emocionalmente investidos em personagens mesmo sabendo que vão morrer várias vezes, algo inovador para o gênero.
Design visual e sonoro a serviço da narrativa
O estilo artístico de Hades, com cores vibrantes e personagens estilizados, cria uma atmosfera que equilibra drama, humor e tensão. Cada sala, inimigo e cenário contribui para a sensação de estar no submundo mitológico.
A trilha sonora reforça a experiência emocional, mudando de acordo com a ação e intensificando momentos dramáticos ou de conquista. Esse casamento de estética e narrativa fortalece a imersão e torna cada tentativa memorável.
Progressão e recompensas narrativas
O sistema de upgrades permanentes permite que o jogador sinta evolução mesmo após falhar. Mais do que melhorias de combate, muitas recompensas desbloqueiam novos diálogos e eventos, incentivando o jogador a explorar todas as ramificações da história.
Essa abordagem une mecânica e narrativa, garantindo que cada tentativa traga algo novo, seja em termos de gameplay ou em termos de história.
A importância do feedback do jogador
Hades também se destaca por ouvir sua comunidade. Atualizações pós-lançamento trouxeram ajustes de balanceamento, novos diálogos, inimigos e eventos. Essa interação constante aprimorou a experiência, mantendo o jogo relevante e engajador mesmo anos após o lançamento inicial.
O impacto cultural do jogo
Hades recebeu aclamação crítica e popular, ganhando diversos prêmios, incluindo o título de “Jogo do Ano” em 2020 por vários veículos. Seu sucesso demonstrou que jogos difíceis podem ser acessíveis emocionalmente e narrativamente, inspirando outros estúdios a explorar roguelikes mais humanos e narrativos.
Além disso, a franquia influenciou a forma como a narrativa pode coexistir com repetição mecânica, mudando a expectativa de jogadores e desenvolvedores sobre o gênero.
A influência de Hades em outros jogos
Diversos jogos independentes e AAA começaram a adotar elementos de Hades: progressão que combina upgrades permanentes, narrativa adaptativa e personagens complexos em mundos repetitivos. Títulos como Dead Cells, Rogue Legacy 2 e Returnal mostram traços dessa filosofia de design.
Hades também reforçou a ideia de que histórias profundas podem ser contadas mesmo dentro de loops de gameplay, desafiando a noção de que roguelikes são apenas sobre mecânica.
Conclusão
Hades redefiniu o roguelike ao mostrar que dificuldade, repetição e narrativa podem coexistir harmoniosamente. Ao humanizar deuses e heróis, tornar a morte um elemento de aprendizado e integrar história ao gameplay, o jogo elevou o padrão do gênero e influenciou toda uma geração de desenvolvedores.
Mais do que um jogo desafiador, Hades é uma experiência emocionalmente rica e duradoura. Ele prova que os videogames podem inovar em narrativa mesmo dentro de fórmulas tradicionais, tornando-se referência obrigatória para quem busca unir desafio e storytelling.

