Clair Obscur: Expedition 33 – arte, tragédia e revolução no RPG contemporâneo

  • Gustavo Santos
  • 2 horas atrás
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Quando foi revelado ao público, Clair Obscur: Expedition 33 rapidamente deixou de ser apenas mais um RPG promissor para se tornar um dos projetos mais intrigantes da nova geração. Desenvolvido pelo estúdio francês Sandfall Interactive e publicado pela Kepler Interactive, o jogo chamou atenção não apenas pelo visual deslumbrante inspirado na Belle Époque francesa, mas também por sua proposta ousada de misturar RPG por turnos com mecânicas ativas em tempo real, narrativa filosófica e uma ambientação melancólica rara no gênero.

Previsto para 2025, o título já conquistou um espaço significativo entre os jogos mais aguardados da geração atual, sendo constantemente citado ao lado de grandes produções de RPG japonesas e ocidentais. Mas o que torna Expedition 33 tão especial? Vamos mergulhar em sua proposta artística, narrativa, mecânica e impacto potencial no cenário dos RPGs modernos.

Um mundo condenado pela Pintora

A premissa de Clair Obscur: Expedition 33 é tão simples quanto devastadora: todos os anos, uma entidade conhecida como “A Pintora” acorda e escreve um número em seu monólito. Todas as pessoas com aquela idade morrem instantaneamente.

Agora, o número é 33.

A humanidade vive sob a sombra desse ritual fatal, e a cada ano organiza uma nova expedição para tentar impedir a entidade antes que ela pinte novamente. O jogador acompanha justamente a trigésima terceira dessas tentativas — uma missão desesperada composta por personagens que sabem que têm pouco tempo de vida.

Essa estrutura narrativa cria um senso de urgência raramente visto em RPGs. Não é apenas uma jornada para salvar o mundo; é uma corrida contra o próprio destino biológico. Diferente de narrativas tradicionais de “herói escolhido”, aqui os personagens são marcados pela contagem regressiva. Eles não lutam por glória, mas por sobrevivência — e talvez redenção.

Estética Belle Époque com fantasia sombria

Um dos maiores diferenciais do jogo é sua identidade visual. Inspirado pela Belle Époque francesa, período artístico e cultural do final do século XIX e início do século XX, o mundo de Clair Obscur mistura arquitetura elegante, moda refinada e arte clássica com elementos de fantasia sombria.

O resultado é um cenário que parece simultaneamente belo e decadente.

A direção artística aposta em contrastes: luz e sombra, vida e morte, delicadeza e brutalidade. O próprio nome do jogo — “Clair Obscur” — remete à técnica artística do claro-escuro, reforçando essa dualidade estética e temática.

Os cenários apresentados até agora mostram cidades em ruínas, paisagens oníricas e criaturas que parecem ter saído de pinturas surrealistas. Há uma sensação constante de que o mundo está morrendo lentamente — não em explosões épicas, mas em silêncio melancólico.

Combate por turnos com mecânicas ativas

Se a ambientação chama atenção, o sistema de combate é o que realmente consolida o interesse dos fãs de RPG.

Clair Obscur: Expedition 33 utiliza combate por turnos tradicional, mas com forte influência de mecânicas em tempo real. Durante ataques e defesas, o jogador pode realizar ações ativas, como esquivas e contra-ataques baseados em timing, aumentando o dano ou reduzindo impactos.

Essa abordagem lembra sistemas híbridos vistos em RPGs modernos, mas aqui parece haver um foco ainda maior na participação constante do jogador, mesmo fora do próprio turno.

O objetivo é evitar a passividade comum em combates por turnos tradicionais, mantendo o ritmo dinâmico e exigindo habilidade além de estratégia. Isso cria uma experiência que pode agradar tanto fãs clássicos de RPG quanto jogadores acostumados a sistemas mais ativos.

Além disso, cada personagem possui habilidades únicas e estilos de combate distintos, reforçando a importância de montar uma equipe equilibrada e adaptável.

Influências claras — mas com identidade própria

É impossível falar de Clair Obscur sem mencionar suas influências. Muitos jogadores compararam imediatamente o jogo a grandes RPGs japoneses contemporâneos, especialmente por sua estética estilizada e combate por turnos modernizado.

No entanto, o título também carrega uma forte identidade europeia — algo raro no gênero. Enquanto muitos RPGs seguem tradições japonesas ou norte-americanas, aqui temos uma visão francesa, tanto na direção artística quanto na atmosfera narrativa.

O jogo combina:

  • Drama existencial
  • Filosofia sobre mortalidade
  • Estética artística refinada
  • Sistema de combate técnico
  • Foco em personagens profundamente humanos

Essa mistura cria uma proposta que parece familiar, mas ao mesmo tempo única.

Personagens marcados pelo tempo

Até agora, os trailers revelaram alguns membros da Expedição 33, cada um com personalidade distinta e motivações próprias. O interessante é que todos compartilham a mesma condição: a proximidade da morte.

Isso permite explorar temas como:

  • Aceitação
  • Revolta
  • Medo
  • Sacrifício
  • Esperança

Em vez de personagens que buscam poder ou fama, temos indivíduos confrontando o fim inevitável. Esse tipo de construção dramática pode resultar em uma narrativa emocionalmente poderosa.

O RPG moderno tem investido cada vez mais em profundidade psicológica, e Clair Obscur parece apostar fortemente nessa direção.

Tecnologia e nova geração

Desenvolvido na Unreal Engine 5, o jogo apresenta um nível técnico impressionante. Iluminação volumétrica, partículas detalhadas e animações refinadas contribuem para uma experiência visualmente impactante.

Mas o mais importante é como a tecnologia serve à atmosfera. A iluminação dramática reforça o conceito de claro-escuro; os cenários densos ampliam o sentimento de opressão; a trilha sonora orquestral intensifica o tom trágico da narrativa.

Não é apenas um jogo bonito — é um jogo que utiliza tecnologia para fortalecer sua identidade artística.

O papel da Kepler Interactive

A publicação pela Kepler Interactive também merece destaque. A empresa vem se posicionando como apoiadora de projetos autorais ambiciosos, focando em jogos que combinam criatividade com alto valor de produção.

Isso sugere que Clair Obscur terá liberdade artística significativa, algo fundamental para uma proposta tão distinta dentro do mercado atual dominado por fórmulas seguras.

Expectativas e impacto potencial

Se cumprir o que promete, Clair Obscur: Expedition 33 pode se tornar um divisor de águas para RPGs ocidentais por turnos. Durante anos, o subgênero foi considerado território quase exclusivo de desenvolvedoras japonesas. Nos últimos tempos, porém, houve uma revitalização global.

O jogo pode representar:

  • A consolidação do RPG europeu como força criativa relevante
  • A modernização definitiva do combate por turnos
  • Uma nova referência estética no gênero
  • Um exemplo de como unir arte clássica e design contemporâneo

Além disso, o timing é estratégico. O público está novamente aberto a experiências narrativas densas e sistemas estratégicos profundos. O sucesso de RPGs recentes mostrou que há mercado para propostas complexas e emocionalmente maduras.

Comparação com RPGs tradicionais

Ao contrário de RPGs de fantasia medieval clássica, Clair Obscur evita dragões e castelos genéricos. Seu mundo parece mais próximo de um pesadelo artístico do que de um conto heroico tradicional.

Também se distancia de RPGs focados exclusivamente em ação. Apesar de incluir mecânicas ativas, sua base estrutural permanece estratégica.

Essa posição híbrida pode ser sua maior força — ou seu maior desafio. Equilibrar acessibilidade e profundidade nunca é tarefa simples.

A importância da identidade cultural

Um dos aspectos mais interessantes é como o jogo abraça sua identidade francesa. Em vez de tentar imitar tendências globais, ele utiliza referências locais — artísticas e históricas — para construir algo novo.

Isso é significativo porque amplia a diversidade cultural dentro do mercado de RPGs AAA. Se bem-sucedido, pode incentivar outros estúdios europeus a explorarem suas próprias tradições artísticas e narrativas.

Um RPG sobre enfrentar o inevitável

No fundo, Clair Obscur: Expedition 33 parece ser menos sobre derrotar um vilão e mais sobre confrontar a própria finitude.

A ideia de uma entidade que “pinta” a morte é quase poética — e cruel. É uma metáfora poderosa sobre o tempo, envelhecimento e fragilidade humana.

Se o roteiro entregar a profundidade sugerida pelos trailers, podemos estar diante de um RPG que transcende batalhas e sistemas, tornando-se uma reflexão sobre existência.

Conclusão

Clair Obscur: Expedition 33 reúne todos os elementos de um grande marco do RPG moderno:

  • Identidade visual única
  • Premissa narrativa forte
  • Combate por turnos renovado
  • Personagens complexos
  • Alta qualidade técnica

Em um mercado saturado de fórmulas repetidas, o projeto da Sandfall Interactive surge como uma aposta ousada na força da arte, da emoção e da estratégia.

Se conseguir equilibrar sua ambição estética com profundidade mecânica, poderá não apenas ser um dos melhores RPGs de 2025, mas também um dos mais memoráveis da década.

Agora resta aguardar o lançamento para descobrir se a Expedição 33 finalmente conseguirá quebrar o ciclo — ou se o número continuará sendo pintado, ano após ano.

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