Concord – A Aposta Mais Arriscada da Sony na Geração PS5

  • Gustavo Santos
  • 2 meses atrás
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Quando a Sony anunciou Concord ao público, a reação foi imediata — e dividida. Em um momento em que o mercado de jogos multiplayer competitivos já estava saturado por gigantes consolidados, a empresa decidiu apostar em um hero shooter totalmente novo, com universo próprio, personagens inéditos e uma proposta que misturava narrativa cinematográfica com combates em equipe. Desenvolvido pela Firewalk Studios e publicado pela PlayStation Studios, Concord nasceu como uma peça central da estratégia da Sony para expandir sua presença no segmento de jogos como serviço.

Mas o que parecia ser uma aposta segura dentro do planejamento corporativo acabou se tornando um dos casos mais debatidos da geração. Entre expectativas elevadas, críticas ao modelo de mercado e uma recepção inicial abaixo do esperado, Concord rapidamente virou símbolo de um momento de transição — e turbulência — na estratégia multiplayer da Sony.

A seguir, vamos analisar o jogo em profundidade: sua proposta, gameplay, identidade visual, construção de mundo, decisões estratégicas da Sony e o impacto de seu lançamento.

A Estratégia da Sony no Mercado Live Service

Nos últimos anos, a Sony deixou claro que pretendia expandir sua atuação além dos grandes jogos single-player narrativos que consolidaram a marca PlayStation. Franquias como The Last of Us, God of War e Horizon continuam sendo pilares, mas o objetivo era criar também experiências multiplayer de longo prazo, capazes de gerar receita contínua e manter comunidades ativas por anos.

Concord surgiu nesse contexto. Ele fazia parte de um plano maior que incluía múltiplos títulos live service sendo desenvolvidos simultaneamente. A aquisição da Firewalk Studios foi estratégica: a equipe reunia veteranos que haviam trabalhado em franquias competitivas de grande escala, trazendo experiência no design de jogos em equipe e sistemas de progressão.

A expectativa era clara: criar uma nova propriedade intelectual forte o suficiente para disputar espaço com líderes do gênero hero shooter.

O Conceito: Space Western com Identidade Própria

Concord foi apresentado como um hero shooter em primeira pessoa ambientado em um universo sci-fi com forte inspiração em space western. A ambientação lembrava produções como Guardiões da Galáxia e Firefly, apostando em personagens carismáticos, visual vibrante e uma pegada irreverente.

O jogador assume o papel de um dos Freegunners, mercenários espaciais que trabalham sob contrato em missões perigosas pela galáxia. Cada personagem possui habilidades únicas, funções específicas dentro da equipe e personalidades bem definidas.

A intenção da Firewalk era clara: não apenas oferecer um jogo competitivo, mas também construir um universo expandido, com potencial para histórias, expansões e desenvolvimento contínuo de lore.

Gameplay: Competência Técnica, Mas Sem Revolução

No campo da jogabilidade, Concord apresentou fundamentos sólidos. O gunplay era preciso, os mapas tinham verticalidade interessante e as habilidades dos personagens incentivavam trabalho em equipe.

Os modos de jogo seguiam o padrão clássico do gênero:

  • Confrontos 5v5
  • Objetivos baseados em controle de área
  • Missões com foco em escolta e eliminação estratégica

Cada Freegunner possuía habilidades ativas, passivas e ultimates, reforçando a necessidade de composição tática de equipe.

Tecnicamente, o jogo era competente. Movimentação fluida, bom desempenho gráfico e direção de arte consistente mostravam que a Firewalk tinha domínio da estrutura básica de um shooter competitivo moderno.

O problema, segundo muitos jogadores e críticos, era outro: falta de diferencial marcante. Em um mercado dominado por títulos estabelecidos, Concord precisava de algo disruptivo — e não apenas sólido.

Design de Personagens e Recepção do Público

Um dos pontos mais comentados foi o design dos personagens. A proposta visual apostava na diversidade e em estilos marcantes, mas parte da comunidade reagiu de forma negativa, argumentando que os personagens não tinham o apelo imediato visto em outros hero shooters.

Enquanto jogos do gênero frequentemente investem em arquétipos visualmente chamativos ou carismáticos, Concord optou por uma abordagem mais “realista estilizada”, o que gerou discussões online.

É importante destacar que, artisticamente, o trabalho era bem executado. A questão não era qualidade técnica, mas conexão com o público. Em um gênero altamente dependente de identificação com personagens, esse detalhe faz enorme diferença.

O Modelo de Lançamento e o Problema do Preço

Talvez o fator mais determinante para a recepção morna tenha sido o modelo de monetização. Diferente de muitos concorrentes que adotaram formato free-to-play, Concord foi lançado como um jogo pago.

Essa decisão estratégica foi vista como arriscada. Em um cenário onde jogadores já têm acesso gratuito a experiências consolidadas do mesmo gênero, convencer o público a pagar por uma nova IP exigia um diferencial muito forte.

Sem esse diferencial evidente, a barreira de entrada acabou sendo um obstáculo significativo.

A Queda Rápida de Popularidade

Após o lançamento, os números iniciais de jogadores ficaram abaixo das expectativas. A base ativa diminuiu rapidamente nas primeiras semanas, dificultando matchmaking e impactando a experiência geral.

A Sony tomou medidas rápidas. Pouco tempo após o lançamento, foi anunciado que Concord seria descontinuado temporariamente, com promessas de reavaliação estratégica.

A decisão surpreendeu o mercado pela velocidade. Grandes publishers raramente admitem falhas de forma tão direta e rápida. O caso passou a ser analisado como exemplo dos riscos envolvidos na corrida pelo mercado live service.

Impacto Corporativo e Reestruturação

O desempenho de Concord contribuiu para mudanças internas na estratégia da Sony. O plano inicial de lançar diversos jogos como serviço foi revisado, com alguns projetos sendo cancelados ou reavaliados.

Executivos reforçaram que a empresa continuaria investindo em multiplayer, mas com maior cautela e análise de mercado.

Concord acabou se tornando um símbolo de um momento de ajuste estratégico — uma tentativa ousada que não atingiu o resultado esperado, mas que trouxe aprendizados importantes.

A Saturação do Mercado de Hero Shooters

Para entender o contexto, é necessário olhar para o cenário maior. O mercado de hero shooters já vinha mostrando sinais de saturação. O público consolidado tende a permanecer em títulos já estabelecidos, enquanto novos lançamentos enfrentam dificuldade para construir comunidade estável.

Além disso, a manutenção de um jogo live service exige atualizações constantes, balanceamento frequente e eventos regulares — o que demanda investimento contínuo alto.

Sem uma base inicial robusta, manter esse ciclo se torna inviável economicamente.

O Legado de Concord

Embora tenha sido considerado um fracasso comercial inicial, Concord não é necessariamente um fracasso criativo. O jogo demonstrou competência técnica, direção de arte consistente e um universo com potencial.

Seu maior erro pode ter sido estratégico, não criativo.

Ele serve como estudo de caso sobre:

  • A importância do modelo de monetização
  • O timing de mercado
  • A necessidade de diferencial forte em gêneros saturados
  • O risco da expansão agressiva para live services

O Futuro da Firewalk Studios

Após o desempenho abaixo do esperado, surgiram dúvidas sobre o futuro da Firewalk Studios dentro da estrutura PlayStation Studios. A Sony reafirmou compromisso com talentos internos, mas também indicou que ajustes seriam feitos.

O aprendizado obtido com Concord certamente influenciará futuros projetos da empresa.

Conclusão

Concord foi uma aposta ambiciosa da Sony em um território altamente competitivo. Tinha boa execução técnica, universo próprio e suporte de uma das maiores publishers do mundo. Ainda assim, falhou em conquistar o público em um mercado que exige inovação imediata ou acesso gratuito para ganhar tração.

Mais do que um simples lançamento mal-sucedido, Concord representa um ponto de inflexão na estratégia multiplayer da Sony. Ele mostra que não basta qualidade técnica: é preciso entender profundamente o momento do mercado e as expectativas do jogador moderno.

O caso reforça uma lição importante para a indústria: em tempos de saturação e competição intensa, ousadia precisa vir acompanhada de diferenciação clara e modelo de acesso estratégico.

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